18.1.10

[ Pompéia e o SESC ] Lina Bo Bardi

Chegamos à cidade e fomos direto a Pompéia. Tomamos nosso café da manhã por ali mesmo e fomos ao SESC, nossa primeira visita. Sem dúvida nenhuma, abrimos a viagem com chave de ouro.

Eu, que pouco conheço de São Paulo, fiquei espantada ao entrar no SESC Pompéia e descobrir um espaço completamente diferente de tudo o que eu havia visto na metrópole até então. Fiquei mais maravilhada ainda quando soube a história do local, projetado por ninguém menos que Lina Bo Bardi.

Os grandes galpões de tijolo aparente nos contam sobre o passado da região de tradição fabril e operária. O local, que costumava abrigar a antiga fábrica de tambores dos Irmãos Mauser (e, posteriormente, a sede da Ibesa-Gelomatic), hoje consegue unir de forma harmoniosa a escala bruta e simplória de uma fábrica à suave busca pelo ludicismo do lazer e da cultura.

Ao entrar no SESC, caminhamos pela rua interna que dá acesso aos galpões da antiga fábrica, hoje modificados para abrigar atividades como espaços de exposição, teatro, restaurante, etc. Durante a caminhada, senti uma estranha sensação de estar completamente envolvida pela arquitetura do local, que me convidava a entrar e descobrir o que ele me reservava.

O projeto do SESC Pompéia foi em grande parte definido no próprio canteiro. A minuciosidade com a qual cada de detalhe foi pensado e o domínio da arquiteta sobre todos os espaços do complexo podem ser percebidos a cada passo, seja na própria estrutura do edifício ou até mesmo no mobiliário que foi nele inserido.

Aquelas mesmas ruas eram, no passado, espontâneamente utilizadas para o lazer da população da região.


"Na segunda vez que lá estive, um sábado, o ambiente era outro: não mais a elegante e solitária estrutura Hennebiqueana mas um público alegre de crianças, mães, pais, anciãos passava de um pavilhão a outro. Crianças corriam, jovens jogavam futebol debaixo da chuva que caía dos telhados rachados, rindo com os chutes da bola na água. As mães preparavam o churrasquinhos e sanduíches na entrada da rua Clélia: um teatrinho de bonecos funcionava perto da mesma, cheio de crianças. Pensei: isto tudo deve continuar assim, com toda esta alegria." BARDI, Lina Bo. Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. 1993.

Dessa forma, Lina manteve as ruas internas como acesso principal, caracterizando um local aberto para apropriações.

Ao entrar no primeiro galpão à direita, deparei-me com um ambiente totalmente diferente daquele que havia imaginado ao observar o edifício pelo lado de fora. O espaço dos galpões havia sido reinventado: nos grandes vãos livres foram implantados elementos em concreto que servem como catalizadores das atividades propostas, permeados por espaços de utilização livre, transformando a antiga fábrica em um projeto moderno sem permitir que o histórico industrial fosse perdido.

A partir das estruturas de concreto e tijolos aparentes, toda a essência do edifício é revelada aos olhos de quem o observa. As estruturas metálicas da cobertura e os coloridos canos aparentes que sobem e descem pelas paredes inserem no ambiente de aspecto brutalista uma certa vitalidade. Mantendo-se os altos pés direitos, em alguns momentos os antigos telhados foram substituídos por elementos translúcidos, que permitem que a luz do dia ilumine o espaço.


Nos outros galpões, fui aos poucos descobrindo a diversidade do programa cultural que o complexo oferece. Cada espaço tem suas características próprias, compreendendo um grande número de atividades. O que torna esses espaços únicos é a forma com a qual são abordadas as atividades, dissolvendo tradicionalismos e abrindo espaço para uma diferente maneira de fazer cultura, que incorpora aos ambientes um caráter popular aceitando apropriações e proposições do público que o utiliza.

A forma como o teatro foi projetado é um bom exemplo disso. Nele, o artista se situa no centro de duas arquibancadas que se encontram de frente uma para a outra, em um palco onde não existe a noção de frente e fundo. As cadeiras de madeira sem estofado também fazem parte do grande conjunto de elementos que provocam sensações inesperadas, projetados com esse propósito em cada detalhe.

"A cadeirinha de madeira do Teatro da Pompéia é apenas uma tentativa para devolver ao teatro seu atributo de “distanciar e envolver”, e não apenas de sentar-se." BARDI, Lina Bo. Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. 1993.


Ainda descendo pela rua interna, passando pelos inúmeros galpões que abrigam a programação cultural do SESC, chegamos a um grande deck de madeira que, como uma continuação da rua, se caracteriza como palco para as manifestações populares que a arquiteta captou e se recusou a desapropriar. Esse deck nos leva à parte posteriormente construída do conjunto, logo à esquerda: duas grandes torres de concreto ligadas por rampas que vencem enormes vãos, causando a imediata sensação monumental que estava faltando até então.

Os edifícios de concreto abrigam a programação de esportes do complexo. Quadras, piscinas e vestiários são encontrados nos inúmeros andares onde a ventilação cruzada é permanente através de aberturas aleatórias que caracterizam uma recusa à formalidade das janelas quadradas e simétricas. A volumetria final é fantástica; As passarelas se cruzam como numa teia que abraça os dois grandes blocos de concreto, enquanto - numa visão mais ampla - moderno e antigo se confrontam em um cenário ao mesmo tempo rústico e delicado.

Os novos edifícios rompem com a racionalidade dos galpões industriais, com uma pitada de monumentalidade e uma boa porção de irreverência e contemporâneidade. Ao mesmo tempo, conseguem trazer, seja na escolha dos materiais ou pela própria escala e volumetria, a linguagem industrial que o complexo não pôde deixar para trás. Ao caminhar pela rua interna até o deck, senti o SESC crescer diante dos meus olhos, partindo do escala moderada da fábrica que foi reinventada até a escala das grandes torres de concreto que vão surgindo por detrás.

Mas não somente de forma concreta, o crescimento se encontra também nas sensações causadas pela arquitetura a cada passo dado. Aquilo que se inicia em uma modesta excitação ao longo dos galpões que aspiram criatividade e liberdade em cada detalhe, termina por trazer uma surpreendente - porém quase inevitável - explosão de [?]. Ainda que não queiramos racionalizar aquilo que vemos, a arquitetura proposta consegue nos fazer sentir através dos cinco sentidos a atmosfera lúdica que é proposta, de forma quase que poética.

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