18.1.10

[ São Paulo; novembro/09 ]

Era para ter durado uma semana inteira mas, para mim, foi reduzida a apenas dois dias. De qualquer forma, a tão esperada viagem a São Paulo permitiu que eu conhecesse um pouquinho mais dessa cidade que nunca pára.
Viajar é experimentar, viver a cidade é se apropriar de tudo aquilo que ela oferece e sentir a arquitetura é compreender o que ela comunica.

[ Pompéia e o SESC ] Lina Bo Bardi

Chegamos à cidade e fomos direto a Pompéia. Tomamos nosso café da manhã por ali mesmo e fomos ao SESC, nossa primeira visita. Sem dúvida nenhuma, abrimos a viagem com chave de ouro.

Eu, que pouco conheço de São Paulo, fiquei espantada ao entrar no SESC Pompéia e descobrir um espaço completamente diferente de tudo o que eu havia visto na metrópole até então. Fiquei mais maravilhada ainda quando soube a história do local, projetado por ninguém menos que Lina Bo Bardi.

Os grandes galpões de tijolo aparente nos contam sobre o passado da região de tradição fabril e operária. O local, que costumava abrigar a antiga fábrica de tambores dos Irmãos Mauser (e, posteriormente, a sede da Ibesa-Gelomatic), hoje consegue unir de forma harmoniosa a escala bruta e simplória de uma fábrica à suave busca pelo ludicismo do lazer e da cultura.

Ao entrar no SESC, caminhamos pela rua interna que dá acesso aos galpões da antiga fábrica, hoje modificados para abrigar atividades como espaços de exposição, teatro, restaurante, etc. Durante a caminhada, senti uma estranha sensação de estar completamente envolvida pela arquitetura do local, que me convidava a entrar e descobrir o que ele me reservava.

O projeto do SESC Pompéia foi em grande parte definido no próprio canteiro. A minuciosidade com a qual cada de detalhe foi pensado e o domínio da arquiteta sobre todos os espaços do complexo podem ser percebidos a cada passo, seja na própria estrutura do edifício ou até mesmo no mobiliário que foi nele inserido.

Aquelas mesmas ruas eram, no passado, espontâneamente utilizadas para o lazer da população da região.


"Na segunda vez que lá estive, um sábado, o ambiente era outro: não mais a elegante e solitária estrutura Hennebiqueana mas um público alegre de crianças, mães, pais, anciãos passava de um pavilhão a outro. Crianças corriam, jovens jogavam futebol debaixo da chuva que caía dos telhados rachados, rindo com os chutes da bola na água. As mães preparavam o churrasquinhos e sanduíches na entrada da rua Clélia: um teatrinho de bonecos funcionava perto da mesma, cheio de crianças. Pensei: isto tudo deve continuar assim, com toda esta alegria." BARDI, Lina Bo. Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. 1993.

Dessa forma, Lina manteve as ruas internas como acesso principal, caracterizando um local aberto para apropriações.

Ao entrar no primeiro galpão à direita, deparei-me com um ambiente totalmente diferente daquele que havia imaginado ao observar o edifício pelo lado de fora. O espaço dos galpões havia sido reinventado: nos grandes vãos livres foram implantados elementos em concreto que servem como catalizadores das atividades propostas, permeados por espaços de utilização livre, transformando a antiga fábrica em um projeto moderno sem permitir que o histórico industrial fosse perdido.

A partir das estruturas de concreto e tijolos aparentes, toda a essência do edifício é revelada aos olhos de quem o observa. As estruturas metálicas da cobertura e os coloridos canos aparentes que sobem e descem pelas paredes inserem no ambiente de aspecto brutalista uma certa vitalidade. Mantendo-se os altos pés direitos, em alguns momentos os antigos telhados foram substituídos por elementos translúcidos, que permitem que a luz do dia ilumine o espaço.


Nos outros galpões, fui aos poucos descobrindo a diversidade do programa cultural que o complexo oferece. Cada espaço tem suas características próprias, compreendendo um grande número de atividades. O que torna esses espaços únicos é a forma com a qual são abordadas as atividades, dissolvendo tradicionalismos e abrindo espaço para uma diferente maneira de fazer cultura, que incorpora aos ambientes um caráter popular aceitando apropriações e proposições do público que o utiliza.

A forma como o teatro foi projetado é um bom exemplo disso. Nele, o artista se situa no centro de duas arquibancadas que se encontram de frente uma para a outra, em um palco onde não existe a noção de frente e fundo. As cadeiras de madeira sem estofado também fazem parte do grande conjunto de elementos que provocam sensações inesperadas, projetados com esse propósito em cada detalhe.

"A cadeirinha de madeira do Teatro da Pompéia é apenas uma tentativa para devolver ao teatro seu atributo de “distanciar e envolver”, e não apenas de sentar-se." BARDI, Lina Bo. Instituto Lina Bo e P.M. Bardi. 1993.


Ainda descendo pela rua interna, passando pelos inúmeros galpões que abrigam a programação cultural do SESC, chegamos a um grande deck de madeira que, como uma continuação da rua, se caracteriza como palco para as manifestações populares que a arquiteta captou e se recusou a desapropriar. Esse deck nos leva à parte posteriormente construída do conjunto, logo à esquerda: duas grandes torres de concreto ligadas por rampas que vencem enormes vãos, causando a imediata sensação monumental que estava faltando até então.

Os edifícios de concreto abrigam a programação de esportes do complexo. Quadras, piscinas e vestiários são encontrados nos inúmeros andares onde a ventilação cruzada é permanente através de aberturas aleatórias que caracterizam uma recusa à formalidade das janelas quadradas e simétricas. A volumetria final é fantástica; As passarelas se cruzam como numa teia que abraça os dois grandes blocos de concreto, enquanto - numa visão mais ampla - moderno e antigo se confrontam em um cenário ao mesmo tempo rústico e delicado.

Os novos edifícios rompem com a racionalidade dos galpões industriais, com uma pitada de monumentalidade e uma boa porção de irreverência e contemporâneidade. Ao mesmo tempo, conseguem trazer, seja na escolha dos materiais ou pela própria escala e volumetria, a linguagem industrial que o complexo não pôde deixar para trás. Ao caminhar pela rua interna até o deck, senti o SESC crescer diante dos meus olhos, partindo do escala moderada da fábrica que foi reinventada até a escala das grandes torres de concreto que vão surgindo por detrás.

Mas não somente de forma concreta, o crescimento se encontra também nas sensações causadas pela arquitetura a cada passo dado. Aquilo que se inicia em uma modesta excitação ao longo dos galpões que aspiram criatividade e liberdade em cada detalhe, termina por trazer uma surpreendente - porém quase inevitável - explosão de [?]. Ainda que não queiramos racionalizar aquilo que vemos, a arquitetura proposta consegue nos fazer sentir através dos cinco sentidos a atmosfera lúdica que é proposta, de forma quase que poética.

[ FAU ] Vilanova Artigas

Saímos do SESC e fomos até a Cidade Universitária da USP, onde se encontra o edifício projetado por Artigas para abrigar a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

O prédio é, sem duvida nenhuma, o lugar mais legal da USP. Por fora, um bloco retangular de concreto aparente, como uma imensa caixa cinzenta de concreto e vidro. Por dentro, uma arquitetura que modifica todo o entendimento tradicional de prédio escolar, trazendo linhas inovadoras e ambientes que quebram completamente com aquela divisão arcaica que as escolas, ainda hoje, tentam implantar.


















Projetado ao redor de um grande vazio, o edifício não tem portas nem janelas e as salas de aula não são realmente ‘salas’ e sim espaços. Ao contrário das outras escolas, onde o interesse é de fechar o aluno para que a atenção não se disperse, todo o edifício da FAU se comunica visualmente, conformando um único universo de ensino e aprendizado em conjunto. Ao subir pelas rampas ao longo dos inúmeros pavimentos, é possível o contato com diversos ambientes ao mesmo tempo, em uma escola que possui todas as suas partes sob um mesmo teto.

Toda a liberdade que o edifício aspira pode ser percebida nas manifestações dos estudantes, registradas ao longo das paredes e mobiliários. Infelizmente, a falta de cuidado dá ao ambiente um aspecto depredado. Os problemas de infiltração auxiliam para a formação desse cenário: telas de proteção são improvisadas sob a cobertura que possui inúmeros pontos de infiltração onde estalactites foram formadas, enquanto o piso é totalmente danificado pelo gotejo. Existem fissuras nas paredes, banheiros interditados e um elevador que não funciona, além de colunas de sustentação destruídas e instalações elétricas em estado precário.

É realmente uma pena.

[ A casinha do Artigas ] Vilanova Artigas

No dia seguinte, visitamos a primeira casinha projetada pelo arquiteto Artigas. Dizemos ‘casinha’ porque é realmente pequena, embora caracterize o surgimento de uma série de mudanças na concepção de moradia da época em que foi projetada, configurando um marco transitório e uma quebra formal do desenho tradicional que era conhecido até então.

Em primeiro lugar, a casa é posicionada a 45º no terreno, quebrando a hierarquia entre as fachadas. Lá dentro, a planta flexível é implantada ao longo de ambientes pela primeira vez integrados. A hierarquia entre os espaços internos e a corrente separação entre áreas nobres e não nobres é completamente esquecida por Artigas: a cozinha se comunica com a sala e o quarto não é separado do restante da casa por paredes; os ambientes são estipulados por diferenças de nível em uma casa onde as divisões internas são praticamente inexistentes.

Embora possua dimensões bastante modestas, a casinha nos envolve com um jogo de escalas caracterizado pela utilização de diversas alturas de pé-direito e grandes janelas que estabelecem a comunicação com o espaço exterior. Apesar da grande integração entre os ambientes, a planta quadrada projetada ao redor de um volume central (onde ficam o banheiro e a lareira) permite que cada espaço seja compreendido em seu próprio uso. O aspecto funcional da casa se mistura com certa sensação de aconchego, em um ambiente envolvido por diferentes texturas.

15.1.10

[ Casa Modernista ] Gregori Warchavchik

Visitamos também a primeira casa modernista do Brasil - projetada por Gregori Warchavchik - na rua Santa Cruz, bairro de Vila Mariana. Em suma, seu projeto para a casa teve como objetivo a racionalidade, o conforto, a utilidade, uma boa ventilação e iluminação – ideais preconizados por Le Corbusier.


A casa, destituída de qualquer ornamentação e formada por volumes prismáticos brancos, foi projetada para ser a residência do arquiteto. A nova orientação estética proposta era bastante impactante para a época.

Inspirado nas paisagens brasileiras, criou uma arquitetura que se adaptou à região, ao clima e às tradições do país. O uso das telhas coloniais ao lado das linhas retas – principais elementos da arquitetura moderna – e a composição da arquitetura com o jardim de flora nativa de caráter tropical, projetado por sua esposa, deram à residência um aspecto muito brasileiro.

[ Centro Cultural SP ] Luiz Benedito Telles e Eurico Prado Lopes

Almoçamos em um restaurante no centro da cidade e, logo depois, fomos conhecer o Centro Cultural São Paulo. Em uma metrópole cheia de arranha céus, a arquitetura horizontalizada do edifício caracteriza um grande respiro para a cidade, com um enorme terraço jardim que insere gentilmente uma área verde em meio ao centro áspero e acinzentado.

O Centro Cultural se encontra tão inserido e permeado pela cidade, que muitas vezes até passa despercebido. No entanto, é clara para aqueles que o observam a beleza do edifício, com sua horizontalidade generosa e transparência cuidadosamente estudada através das grandes superfícies envidraçadas.

Em seu interior, os diversos pavimentos são ligados por rampas, formando ambientes inteiramente conectados física e visualmente. Apesar de existirem divisões de setores de atividades, não há separação física do espaço, o que contribui para que as pessoas se comuniquem e informações entre as divisões possam ser trocadas.

Os espaços para exposição, teatro, filmes, etc, são permeados por espaços destinados simplesmente para o 'estar', que caracterizam um cenário próximo ao de uma praça. As largas rampas deixam de ser apenas acessos, se comportanto como uma continuidade dos pavimentos. Aço, concreto e vidro se misturam com vegetações internas, em um desenho hora complexo - formado pela alternância dos pavimentos ligados por uma teia de rampas - hora simplório, com as horizontais praças internas. O espaço externo do edifício se encontra no grande terraço jardim, que possui uma bela vista para a cidade.













A configuração do edifício mostra mais do que uma simples tentativa de atender às questões funcionais, e sim uma preocupação com as experiências das pessoas com e no espaço. Acredito que a concepção de um caminhar inteligente não significa se orientar para uma direção, mas vaguear pelo local e se permitir desvendar os corredores e cantos, e é exatamente isso que o edifício propõe
.

[ Fim ]